O JORNALISMO MORREU !

junho 10, 2006

Réquiem para um release

“O tempo dos camponeses rezarem Ave Maria está de volta !”

“Canibais em pleno século XXI ?”. É o que se pergunta padre Carcass (Elio Coppini), cercado por galinhas, logo no início de A Curtição do avacalho, nova obra do videasta catarinense Petter Baiestorf. Este vídeo é um libelo que ataca – de maneira direta, cínica e certeira – Igreja, Estado e desatentos emburrecidos de plantão. Em A Curtição do avacalho, vemos pecadores de uma comunidade rural tendo suas carnes derretidas como expiação à suas ofensas cristãs, um exército revolucionário – de duas pessoas – digladiando-se com hordas de zumbis putrefatos e um cientista filósofo ensandecido – como não poderia deixar de ser – que constrói uma múmia de Cristo para controlar o mundo.

Qual é o resultado de tanta disparidade reunida ? Uma possível resposta à pergunta – e também ao questionamento do padre Carcass – pode remeter à resistência da Canibal Produções, que conta mais de dez anos de atividades, realizando obras cult e transgressoras no circuito underground. A Curtição do avacalho, antes de ser entretenimento para os fãs de terror e escatologia – elementos que não faltam nesta produção – é um vídeo questionador que pode mexer com os brios dos puritanos – se é que estes realmente existem em vez de serem alucinações consensuais ...

“Quem faz cinema sem dinheiro tem mais que ir pra puta que pariu mesmo.”

Não espere de A Curtição do avacalho um vídeo trash nos moldes dos trabalhos anteriores de Baiestorf. Aqui, ele usa e abusa da metalinguagem, característica observada nos filmes de Alejandro Jodorowsky, uma das suas várias influências. Embora assuma a inspiração, Petter Baiestorf vocifera que A Curtição do avacalho está voltado mais para o cinema nacional de realizadores como Júlio Bressane e Rogério Sganzerla. Por várias vezes, o foco de desloca da cena principal e vai atingir toda a equipe de produção, que não mostra papas na língua na hora de questionar valores morais, sociais e – por que não ? – profissionais.

O espectador – este pobre coitado ! – que tire suas próprias conclusões, ao ver cenas como a que o personagem Juanito, também conhecido como Santeria (César Souza), agoniza após levar um tiro na barriga; ferido mortalmente, ele despeja, no lugar das tripas, rolos e mais rolos de VHS. Outra cena de destaque é aquela em que o próprio Baiestorf mastiga DVDs de filmes blockbusters, enquanto Souza recita o poema 2005 foi outro ano ruim:

Se masturbando com inocência virginal,

Ejaculando pensando em arte experimental,

Em promessas quebradas pela industria artesanal

transformada em jorros de merda industrial.

Cuspir palavras ao vento

Pelo simples prazer de cuspi-las.

Juras de amor à arte

Ditas sem a importância da sinceridade.

E proibiram a criatividade!!!

E aniquilaram a ousadia!!!

Não pensar para melhor consumir!!!

Salve salve os produtos descartáveis!!!

salve salve os produtos descartáveis!!!

salve salve os produtos descartáveis!!!

Salve salve os produtos descartáveis!!!

As intervenções metalingüísticas não param por aqui. Pontuando todo o vídeo, estas dão novos contornos à narrativa, abordando a morte do cinema, a dificuldade de se pensar artisticamente em terra brasilis e até mesmo avacalhando com o espectador. A Curtição do avacalho é uma piada que deu certo; ria junto com Baiestorf e sua trupe, mesmo que seja um risinho amarelado.

Ou você prefere ter sua carne derretida ?

1 Comments:

  • Eu já tinha lido esse texto e não vejo a hora desse filme pintar em terras cariocas!

    By Anonymous Anônimo, at 01:32  

Postar um comentário

<< Home


 
>